Daycoval usa tecnologia para avançar no crédito

Data: 07/11/2019

Quando a crise econômica bateu à porta, em 2014, a família Dayan decidiu adotar uma nova estratégia para o Daycoval, controlado por ela. Especializado no crédito a empresas, o banco passou a atender um número maior de clientes – inclusive, ampliando a operação que já tinha com pessoas físicas – para pulverizar o risco e só então voltar a crescer.

Cinco anos depois, o Daycoval começou a colher os frutos desse modelo, viabilizado por investimentos na digitalização de processos e da oferta de produtos. “Vamos chegar neste mês a 1 milhão de clientes, e estamos usando tecnologia para fazer mais com eles. Para nós, é estratégico ter esse contato direto”, afirma o Morris Dayan, diretor-executivo do banco. Avesso a holofotes, o banqueiro concedeu ao Valor uma rara entrevista.

Com o objetivo de estreita esse relacionamento, colocou em campo a assistente virtual Dayana, desenvolvida internamente, para interagir com os clientes e executar transações. Lançou aplicativos para pessoas físicas e automatizou a de fundos. Uma área de investimentos foi criada para surfar a onda das plataformas e diversificar as fontes de captação.

Apesar disso, o Daycoval quer fugir do rótulo de banco digital, que tem proliferado entre as instituições financeiras de médio porte. A ideia é que a tecnologia seja um meio para aumentar o número de transações que os clientes fazem com o banco e a frequência com que isso acontece. Mas, segundo Dayan, o jeitão conservador da casa não vai mudar. “Queremos crescer por meio do crédito e não de serviços”, diz.

Depois de alguns anos em marcha lenta, a carteira do Daycoval voltou a ganhar folego. O estoque de empréstimos e financiamentos somava R$ 23,9 bilhões no fim de setembro, crescimento 36,2% em um ano. No mesmo período, o mercado de crédito avançou 5,8%. O lucro líquido do banco chegou a R$ 647,1 milhões nos nove primeiros meses deste ano, alta de 33,2%.

Para voltar a crescer, o Daycoval reduziu o tíquete médio de suas operações e lançou novos produtos, como leasing, finanças e cambio. No crédito a empresas, vem expandindo as operações de capital de giro e compras de direitos creditórios. No segmento de pessoas físicas, os focos são consignado e financiamento de veículos. A inadimplência estava em 1,7% no fim do terceiro trimestre.

O atendimento a pessoas físicas está, em boa média, automatizado. Porém, ainda dispensa os correspondentes bancários – são eles que usam aplicativos lançados pelo Daycoval para contratar operações de consignado e veículos.

No atendimento a pessoas jurídicas, 90% das contas já são abertas de forma digital, sem nenhuma intervenção humana. Os clientes, em geral pequenas e médias empresas, enviam ao banco o contrato social, o sistema lê e completa o processo. A instituição também tem usado inteligência artificial para fazer a checagem de duplicatas, usadas como garantia no crédito a pequenas empresas. Um terço desses títulos já é “lido” dessa forma e a meta é ultrapassar 50%.

Sob comando de Alexandre Rhein, diretor de TI, a equipe de tecnologia é formada por 215 pessoas. O banco como um todo tinha quase 2,3 mil funcionários em setembro – um aumento de 26,7% em um ano. Para acomodar o crescimento, o Daycoval alugou três andares de um prédio quase em frente à sede do banco, na Avenida Paulista.

Segundo Dayan, os investimentos na digitalização foram de R$ 100 milhões por ano nos últimos dois anos e devem se manter nesse patamar.

A expansão pesou nas despesas operacionais, que aumentaram 14,5% nos nove primeiros meses de 2019, para R$ 711,8 milhões. “Esses investimentos vão ajudar na produtividade”, afirma o diretor de relações com investidores, Ricardo Gelbaum.

O Daycoval passou os últimos anos com uma postura cautelosa diante do cenário econômico. Tanto que fez um grande reforço nas provisões contra calotes em 2018 e uma nova rodada este ano, quando o ambiente começava a melhorar. Dayan ainda não tem planos de reverter o movimento, mas já se permite dizer que está “moderadamente otimista”. Segundo ele, as perspectivas são de retomada forte do crédito, com inadimplência sob controle. “O crescimento [do país] é baixo, mas a tendência está no caminho certo”, afirma.

Essa nova rodada de expansão deve ser bancada com recursos reinventados pela família no negócio e pelas fontes correntes acessadas pelo banco. Captação de pessoas físicas, letras financeiras e linhas tomadas no exterior compõe a base do funding. O Daycoval foi um dos bancos médio que fizeram IPO em 2007, mas as ações foram recompradas em 2016.

*Texto extraído do Jornal Valor Econômico em 07/11/2019